BioTechs: conheça as startups da indústria farmacêutica

biotechs

As empresas da indústria farmacêutica precisam se preparar para o maior desafio de sua história: o futuro. A tecnologia digital é irrefreável e o consumidor tornou-se um mutante digital. Lidar com tudo isso, alcançar mais excelência, inovar e garantir competitividade são os desafios. Em resumo: é preciso lidar com tudo isso e manter um alto nível de gestão, rumo ao que chamamos hoje de biotechs.

Inteligência Artificial, Internet das Coisas, nuvem, robótica avançada, mobilidade, blockchain, realidade aumentada: tudo isso, de alguma forma, já está sendo aplicado na indústria farmacêutica ou no radar de CEOs, CFOs, CIOs, CMOs e COOs. Começamos chamando de transformação digital, que consistia em reinventar modelos de negócio de olho no novo consumidor e nas novas tecnologias ou tecnologias emergentes.

Todas essas possibilidades e as tecnologias envolvidas trazem à mesa um volume cada vez maior de informações e a necessidade de transformá-las em inteligência, inovações, agilidade, decisões e em melhor gestão. Isso nos conduz ao que o mercado está chamando de Empresa Inteligente. As novas modalidades de computação corporativa, tais como Cloud Computing e Machine Learning estão permitindo que empresas construam processos de negócios mais inteligentes.

Mas antes de tudo:

Você sabe o que é uma startup?

A utilização do termo começou durante a crise das empresas ponto-com, entre 1996 e 2001. Na época, foi formada uma bolha especulativa caracterizada pela alta das ações das novas empresas de tecnologia da informação e comunicação alocadas no espaço da Internet. A Bolha da Internet, como ficou comumente conhecida, adotou e começou a utilizar o termo startup, que até então apenas significava um grupo de pessoas trabalhando por uma ideia diferente e com potencial de fazer dinheiro. Além disso, startup, na etimologia da palavra, também sempre foi sinônimo de iniciar algo e colocá-lo em funcionamento.

Startup é uma empresa jovem com um modelo de negócios repetível e escalável, em um cenário de incertezas e soluções a serem desenvolvidas. Embora não se limite apenas a negócios digitais, uma startup necessita de inovação para não ser considerada uma empresa de modelo tradicional.

Há bastante espaço para discussão e interpretação do significado real do que é uma startup. Muitas pessoas dizem que qualquer pequena empresa em seu período inicial pode ser considerada uma startup. Outros defendem que uma startup é uma empresa com custos de manutenção muito baixos, mas que consegue crescer rapidamente e gerar lucros cada vez maiores. Há ainda quem diga que a “tia do cachorro-quente” é uma startup e uma franquia de lanches é uma empresa. Se desmembrando a palavra, chegamos ao ato de iniciar algo, seria todo empreendimento um dia uma startup?

A resposta é não. Existem algumas características que definem esse tipo de empresa que excluem negócios tradicionais. Elas são: modelo de negócio inovador, repetível e escalável e cenário de incertezas.

O modelo de negócios é diferente de um plano de negócios, que foca em estratégias detalhadas para atingir metas, por exemplo. No modelo de negócios, o foco não é necessariamente no produto, mas no valor e, consequentemente, na rentabilidade. Em outras palavras, como o seu negócio soluciona a dor do cliente de forma lucrativa. Muitas vezes, o desafio do modelo de negócios de startups é criar algo inovador: ou adaptar um modelo de negócios para uma área onde não é comumente aplicado, ou criar um modelo totalmente novo.

Repetível e escalável: esses dois fatores são super importantes para uma startup, uma vez que sem eles o negócio tem grandes chances de se tornar insustentável. Quem empreende com uma startup nunca sabe o dia de amanhã: afinal, a empresa terá capital para se manter? Essa é uma pergunta vital para esse negócio. Um produto repetível e escalável traz inúmeras vantagens, uma vez que ele promete atingir um grande número de clientes e gerar lucro de forma rápida!

Para um negócio ser repetível significa que ele é capaz de entregar o mesmo produto em escala potencialmente ilimitada. Dessa forma, não é viável muitas customizações ou adaptações, pois a meta é multiplicar. Já ser escalável significa crescer cada vez mais sem que isso influencie no modelo de negócios. Como resultado, um modelo de negócio repetível e escalável que tem um fit no mercado tem grandes chances de ser uma startup de sucesso.

Criar uma startup é fugir do tradicional. Como procura ser disruptiva, dificilmente uma startup vai ter um manual de como ser bem sucedida. Não há como afirmar se a ideia ou projeto de empresa irão realmente deslanchar. Dessa forma, o caminho a ser trilhado e os passos que o empreendedor deve tomar são minimamente incertos.

Uma forma de lidar melhor com esse cenário de incertezas é o produto mínimo viável, também conhecido como MVP. Ele tem o objetivo de validar uma solução e ajudar a entender o que o cliente realmente quer gastando o mínimo possível. 

As startups podem ser divididas de várias formas, sendo que as principais são entre tipos de negócio ou nichos onde atuam. Em relação aos tipos de negócio, destacam-se três tipos:

B2B (Business to Business): em português, negócios para negócios, esse tipo de startup atende outras empresas ao invés do consumidor final diretamente.

B2C (Business to Consumer): em português, negócios para consumidores, essa startup fornece um serviço para o consumidor final. 

B2B2C (Business to Business to Consumer): em português, negócios para empresas para consumidores, é utilizada quando uma empresa faz negócios com outra visando uma venda para o cliente final.

Já os nichos onde atuam são de acordo com a área da empresa. Você já deve ter se deparado com termos como FinTech, HealthTech, EdTech, LawTech e por aí vai. Essas são nomenclaturas para definir startups no ramo, respectivamente, de mercado financeiro, saúde e medicina, educação, direito. No nosso caso, estamos falando das BioTechs ou PharmaTechs, as startups da indústria farmacêutica.

O que estão fazendo as biotechs

Apesar do crescimento da população mundial e da crescente demanda por medicamentos, a indústria farmacêutica tradicionalmente não inovou no mesmo ritmo. Segundo a BBC, o Dr. Kees de Joncheere, da Organização Mundial da Saúde, declarou: “O sistema [indústria farmacêutica] nos serviu bem em termos de desenvolvimento de bons novos medicamentos, mas nos últimos 10 a 20 anos houve muito pouco avanço, inovação”. 

De 2006 a 2015, o número médio de pedidos aprovados de novas entidades moleculares (NME) e de novos pedidos de licença biológica (BLA) pelo FDA foi de aproximadamente 32 e pesquisas (via Washington Post) indicam que 78% das patentes aprovados pelo FDA correspondem a medicamentos já existentes no mercado.

Nos últimos anos, vimos uma mudança. Em 2017 e 2018, o número de NMEs e BLAs aprovados aumentou para 46 e 59, respectivamente, em comparação com 45 em 2015. Em 2018, 19 dos 59 novos medicamentos aprovados foram considerados de primeira classe, 34 receberam designação órfã para tratamento de doenças raras e 24 receberam a designação rápida, pois se destinam a condições graves com necessidades médicas não atendidas. Embora isso seja encorajador, é importante observar que um relatório do Instituto IQVIA, de 2019, constatou que 64% dos medicamentos aprovados pela FDA em 2018 (via Fierce Biotech) eram provenientes de biotechs.

Com os avanços da tecnologia fornecidos pelas startups, a indústria farmacêutica pode sofrer uma disrupção em todo o setor. As grandes empresas, tradicionalmente responsáveis ​​por todos os aspectos do pipeline de descoberta de medicamentos, continuarão a terceirizar esses processos para empresas menores e disruptivas, com alternativas simples e acessíveis. 

Como explica Clayton Christensen, no The Innovator’s Prescription, essa disrupção permitirá que os peixes grandes reduzam os investimentos de atividades menos lucrativas em seus negócios e reorientem os esforços para resultar em maiores lucros e produtividade. Em um artigo recente publicado pelo Endpoints News, os autores sugerem crescente concorrência e menor retorno do investimento em P&D como principais razões para a redução de processos de negócios não essenciais. Frequentemente, essa disrupção envolve aspectos de terceirização da cadeia de suprimentos farmacêuticos para empresas especializadas, como organizações de pesquisa contratada (CROs), bem como organizações de desenvolvimento e fabricação de contratos (CDMOs). 

De acordo com o relatório do IQVIA Institue, as biotechs “patentearam quase dois terços dos novos medicamentos lançados em 2018”, embora as grandes farmacêuticas tenham um papel importante. No geral, da descoberta aos ensaios clínicos, parece que a disrupção está bem encaminhada na indústria farmacêutica.

A disrupção do pipeline de descoberta, desenvolvimento e distribuição de medicamentos pode resultar em um novo equilíbrio de poder no setor e oferecer aos players a oportunidade de ter sucesso em um setor anteriormente saturado de barreiras substanciais à entrada. 

Continua a ter um número crescente de biotechs bem financiadas – e empresas focadas em Inteligência Artificial para descoberta e desenvolvimento de medicamentos – emergindo rapidamente no cenário global, como a Nimbus Therapeutics, Puma Biotech, Blueprint Medicines e Recursion Pharmaceuticals. 

Estamos vendo grandes mudanças no espaço de fusões e aquisições; de acordo com o The New York Times, o valor de negociação das biotechs se aproximaram de US$ 146 bilhões nos primeiros dois meses de 2019 nos EUA – mais do que o anunciado em 2017 e 2018. O artigo observou que “as aquisições de empresas de biotecnologia americanas estão subindo e também os preços que os compradores estão dispostos a pagar”. Como resultado, as grandes empresas farmacêuticas podem procurar manter sua posição pagando em excesso pelo alto potencial das empresas de biotecnologia, o que poderia proporcionar uma grande oportunidade para outros novos players.

De acordo com um artigo recente no Science Daily, “o sequenciamento do genoma humano e o desenvolvimento de tecnologias poderosas e acessíveis de sequenciamento de DNA deram início a uma nova era da oncologia de precisão, na qual os pacientes são tratados com terapias personalizadas projetadas para atingir as mutações específicas dentro de empresas, que podem projetar medicamentos direcionados a doenças no nível molecular, minimizando os efeitos colaterais fora do alvo e considerar a farmacogenômica estrutural. Elas podem transformar a estrutura da indústria farmacêutica e curar doenças com um nível significativo de precisão”.

Os desafios são maiores do que nunca, mas o futuro da indústria farmacêutica parece promissor. As biotechs podem liderar o processo de inovação de modelos científicos e de negócios e serão responsáveis ​​por muitas dessas mudanças no setor. E, embora seja provável que ocorra a consolidação da biotecnologia por grandes empresas farmacêuticas, uma nova classe de startups que rivalizam com os players tradicionais surgirá. Acredito que a indústria farmacêutica se reinventará e desempenhará um papel significativo na melhoria da saúde de bilhões de pessoas em todo o mundo.